
Cultura e Pandemia
Um novo olhar para o consumo
A pandemia de Covid-19 impôs uma nova realidade ao mundo. As taxas de contaminação e de letalidade do novo coronavírus desencadearam a adoção mundial de medidas de isolamento social, que tinham como principal objetivo frear a disseminação da doença.
Diversos setores da economia foram impactados pela diminuição obrigatória na circulação de pessoas, e com a cultura não foi diferente, uma vez que o formato majoritariamente adotado por eventos culturais (shows, exposições, cinemas, festivais etc.) sempre foi o presencial. Com a impossibilidade de consumo desses produtos in loco, toda a cadeia de produção foi prejudicada, com consequências mais duras para artistas independentes, empresas de pequeno porte e seus colaboradores.
Mesmo com o total dos gastos públicos destinados ao setor cultural passando de R$ 7,1 bilhões para R$ 9,1 bilhões em sete anos (2011-2018), e com o registro de 45% de seus trabalhadores na informalidade - números que indicam um sucateamento gradual -, o ramo da cultura, em 2018, empregava mais de 5 milhões de pessoas, o equivalente a quase 6% do total de ocupados no país. Esses são dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).
Antes da pandemia, a previsão do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) de 2007-2018 era de que os segmentos cultural e criativo gerariam R$ 43,7 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2021.
As consequências provocadas pela pandemia nesses setores foram analisadas na pesquisa “Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Cultural e Criativo do Brasil”. Promovido pela representação da Unesco no país e realizado entre junho e setembro de 2020, o levantamento investigou fatores como impacto do novo vírus na receita de agentes culturais e em sua cadeia produtiva, os tipos de apoio recebidos por trabalhadores e empresas, as estratégias de liquidez que adotaram e suas necessidades para superação da crise.
A pesquisa obteve 2667 respostas provenientes de todos os estados mais o Distrito Federal. Deste número, quase 70% dos respondentes são pessoas físicas e trabalhadores e 30%, coletivos (pessoas jurídicas, incluindo MEI, representantes de coletivos ou comunidades). Todos atuantes em atividades como artes cênicas, música, audiovisual, festivais e feiras etc.
Segundo o levantamento, entre os meses de maio e julho de 2020, período no qual o Brasil carregava o título de epicentro da Covid-19 na América, quase 49% dos agentes culturais - tanto empresas quanto trabalhadores - perderam toda sua renda.
A situação é muito grave, porque o faturamento mensal de cerca de 37% das organizações respondentes está entre 1 mil e 2,9 mil reais, e mais da metade dos trabalhadores - aproximadamente 55% - são autônomos ou informais.
Mesmo com uma estimativa de queda no número de agentes com a receita totalmente comprometida, os pesquisadores afirmam que esses setores foram os mais prejudicados, uma vez que a normalização de suas atividades acontecerá somente após o fim da pandemia.
Diante desses expressivos efeitos na renda dos agentes culturais, a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) criou o Projeto de Lei Aldir Blanc (Lei 14.017/2020), que foi regulamentado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 29 de maio de 2020. A verba liberada foi destinada à manutenção de espaços culturais e ao pagamento de um auxílio emergencial de R$600 a profissionais da cultura.
Outra iniciativa desse tipo é o Projeto de Lei Complementar Paulo Gustavo, que propõe destinar R$4,3 bilhões aos setores cultural e audiovisual. A verba será proveniente de dois fundos de apoio a atividades culturais e da contrapartida de estados e municípios. Assinado pelo senador Paulo Rocha (PT-PA), em conjunto a outros senadores do partido, o projeto que já tramita no Senado Federal prevê que o setor receba o valor até o final de 2022, uma vez que os impactos da pandemia seguirão afetando o mercado.
Além de iniciativas de cunho financeiro, a principal ferramenta para viabilização da produção e distribuição de produtos culturais - processos que geram renda, sustentam empregos e fornecem entretenimento à sociedade - tem sido a tecnologia. O mundo digital, no qual o contato físico não acontece, se abriu como uma alternativa mais viável, ao menos no sentido de biossegurança, para casas de shows, músicos, companhias de teatro, produtoras de filmes e museus darem continuidade a suas atividades.
Ainda que a adaptação ao digital não seja simples, pois requer equipamentos e conhecimentos específicos, boa conexão de internet, organização e planejamento para monetização das atividades, essa foi a solução adotada por muitos do setor.
No levantamento realizado pela Unesco, os participantes tiveram que responder sobre a adaptabilidade de seus serviços/produtos ao formato digital. A adaptação parcial foi possível para quase 61% dos indivíduos e para aproximadamente 66% das organizações.
Essa adaptação acontece, por exemplo, na transmissão ao vivo de apresentações dos mais diversos tipos. Em abril de 2020, a modalidade colocou o Brasil na liderança do ranking mundial organizado pelo YouTube Global, graças ao show da cantora sertaneja Marília Mendonça, que obteve 3,3 milhões de acessos simultâneos e 40 milhões de visualizações durante sua realização. Acontece, também, no lançamento e na exibição paga de filmes via serviço de streaming, na digitalização de exposições de arte e na produção exclusiva de conteúdo para redes sociais.
O consumo de produtos culturais digitais de brasileiros durante a pandemia foi analisado no levantamento “Hábitos Culturais - expectativas de reabertura e comportamento digital”, feito pelo Itaú Cultural em parceria com o Datafolha. Realizada em setembro de 2020, a pesquisa teve 1521 respondentes de idades entre 16 e 65 anos, integrantes de todas as classes sociais e moradores de todas as regiões do país. Algumas das atividades culturais avaliadas foram: apresentações de música, espetáculos de dança, cinema, peças de teatro, museus etc.
Segundo a pesquisa, se desconsiderarmos a atividade digital mais procurada - assistir séries e filmes, hábito que não “surgiu” por causa da pandemia, somente foi ainda mais potencializado por ela - em primeiro lugar, com 60% das escolhas, está o consumo de shows musicais, seguido do consumo de teatro, de apresentações de dança e de circo, com 28%.
Nesta reportagem, sete artistas, organizações e empresas relatam seu processo de reinvenção e de adaptação de seu trabalho ao mundo digital.

Cinema
Fonte: Reprodução Unsplash/Julien Andrieux
Salas de cinema fechadas e filmagens interrompidas não faziam parte da normalidade. Mas em março de 2020, a realidade foi posta à prova e a indústria cinematográfica brasileira enfrentou um enorme prejuízo, um ano depois do setor registrar o melhor momento dos últimos 17 anos. Para se ter uma ideia, segundo levantamento de dados da Comscore, em 2019, no Brasil, o número de espectadores foi de R$177,2 milhões, 76% maior do que no ano de 2018, e a bilheteria chegou a R$2,8 bilhões. Em 2020, os cinemas brasileiros tiveram queda de 78% na receita em relação ao ano anterior. No total, foram arrecadados cerca de R$646 milhões.
Para Marciel Consani, professor de pós-graduação do Programa Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), a pandemia intensificou o problema: ''Imagine um barco que já estava torpedeado, quase naufragando por falta de apoio do Estado, principalmente. Antes da pandemia, já era difícil incentivar o público a assistir filmes nacionais nas salas, agora isso se tornou inviável.”
Os altos cortes no setor e a paralisação deliberada das atividades de promoção levaram a Agência Nacional do Cinema (Ancine) a descumprir suas obrigações nos termos da Lei da TV Paga (Lei 12.465/2011), que visa fomentar a indústria audiovisual nacional.
Com as complicações que duram mais de dois anos no audiovisual brasileiro, a Lei Aldir Blanc serviu como um alívio para o setor durante a pandemia, pois, além da renda mínima estabelecida para profissionais da área, a gestão de fundos destinados a prefeituras e governos estaduais garantiram iniciativas que proporcionaram um suporte maior ao ramo.
Os editais de promoção cultural permitiram que festivais de cinema e filmagens de conteúdo audiovisual ocorressem durante a pandemia, algo inicialmente impensável devido aos cortes que foram realizados na área com o governo Bolsonaro e por causa das medidas de distanciamento social. ‘’No momento em que a Ancine começou a ser ‘emparelhada’ e ‘desvirtuada’, o Brasil se tornou irrelevante em grande parte da área internacional, pois deixou de ter o apoio do Estado. Em parte, isso foi compensado por leis regionais e pelos investimentos previstos na Lei Aldir Blanc”, diz Consani.
Nos moldes da Lei Aldir Blanc, o Projeto de Lei Paulo Gustavo, uma homenagem ao ator que deu vida à personagem Dona Hermínia e que foi vítima da Covid-19, destinará maior parte da verba ao setor audiovisual brasileiro, sendo o montante R$2,8 bilhões. O PL gerou polêmica nas redes sociais e mobilizou estados para discutir a proposta que prevê medidas emergenciais para artistas.
Produções audiovisuais beneficiadas pela Lei Aldir Blanc

O filme discute a (IN)visibilidade dos corpos fora da norma atribuída pela sociedade. O projeto teve apoio financeiro do estado da Bahia e está disponível no YouTube. Foto: Reprodução/YouTube/Leo Bião

A websérie documental, financiada pelo governo do Ceará, registra o cotidiano de mulheres artistas do interior do estado. Seus dez episódios podem ser assistidos no YouTube. Foto: Reprodução/YouTube/Alexia Duarte

O documentário, que homenageia o Festival de Pequenos Espaços Teatrais (FePET), foi financiado pela prefeitura de Ubatuba, São Paulo. A produção pode ser assistida no canal "OfficinaArtAud", no YouTube. Foto: Reprodução/YouTube/OfficinaArtAud

O filme registra os caminhos percorridos pela atriz, passista e professora do Grupo Guerreiros do Passo, Lucélia Albuquerque. Contemplada por Pernambuco, a produção pode ser assistida no YouTube. Foto: Reprodução/YouTube/Guerreiros do Passo

O curta-metragem retrata a ausência do Carnaval e mescla diferentes linguagens como dança e atuação em uma obra experimental. A produção foi viabilizada pelo governo de Pernambuco. Foto: Reprodução/YouTube/Ladeiras do Delírio

O curta-metragem trata de questões enraizadas na sociedade sobre os tipos de relações familiares no século XX, mas ainda latentes nos dias atuais. O projeto foi executado no Rio Grande do Sul e o fim das gravações está previsto para setembro de 2021. Foto: Isadora Quintana
STREAMING
As plataformas de streaming nunca estiveram tão em alta como agora. Isso porque a pandemia impôs novas alternativas para lançamentos de produções audiovisuais em todo o mundo. No Brasil não foi diferente: as produções nacionais tiveram que se adaptar ao novo formato.
A produção 5x Comédia, primeira série nacional do Amazon Prime Video, teve suas cenas dirigidas remotamente e, por coincidência, critica quem não segue as recomendações contra a Covid-19. Para Consani, o exemplo revela que o audiovisual brasileiro está ampliando sua influência no streaming durante a pandemia e desenvolvendo uma nova estrutura narrativa para seu conteúdo sob demanda, o que o diferencia do modelo clássico de novelas e séries de televisão. Consani analisa o fenômeno de forma positiva: “Acho isso interessante para divulgar o conteúdo audiovisual nacional, que é um desafio da geração que veio antes da minha, pois desde sempre o país almeja produzir uma indústria nacional de filmes.’’
'5x Comédia': Trailer da primeira produção original brasileira do Amazon Prime Video. Fonte: Youtube/Reprodução
O especialista salienta que o streaming se transforma em vitrine para o conteúdo nacional: “Tudo bem que quase tudo conspira para a gente não conseguir, pois fica aquele mito de que o Brasil é bom em novela, mas não para cinema. O país tem toda essa condição de fazer isso, o problema é que antes não havia um mercado para escoar essa produção, muito menos um fomento privado. As esperanças vão no sentido de que o streaming ajude bastante a catapultar a veiculação de filmes nacionais. Não necessariamente a gente considera que o cinema está ganhando, mas sim o universo de profissionais envolvidos.’’

Exposições de arte
Fonte: Mayara Lins
Pela primeira vez na Idade Moderna, os museus deixaram de ser uma alternativa de “rolê” de fim de tarde ou o ponto alto do circuito turístico em viagens internacionais. Espaços como o Metropolitan Museum of Art (MoMa) e British Museum viram pela primeira vez seus corredores vazios. A Monalisa se sentiu um pouco solitária ao não receber seus 9,6 milhões de visitantes, como aconteceu no ano de 2019.
Segundo o Conselho Internacional de Museus (ICM), aproximadamente 85 mil centros culturais ao redor do mundo tiveram que fechar as portas durante o período de lockdown. A medida, que visa a menor disseminação do vírus e, consequentemente, faz diminuir a circulação de pessoas, teve como efeito colateral uma previsão de não reabertura definitiva de pelo menos 13% dos espaços. Mas, de certa forma, a pandemia trouxe um novo olhar para o consumo de arte também.

Releitura da Venus de Milo
Em meados de 2020, com a diminuição da média móvel de mortes por dia no Brasil, houve uma reabertura tímida de alguns espaços culturais, que se preocuparam em trazer novos hábitos para manter seus visitantes seguros.
A galeria Karla Osório, no Distrito Federal, optou por visitas agendadas para garantir o distanciamento social. No Itaú Cultural, em São Paulo, os fones de ouvido do espaço, que eram utilizados para interação com as obras, foram substituídos por apenas plugs, nos quais os visitantes deveriam conectar seus próprios acessórios. A adaptação tem como objetivo diminuir o contato dos espectadores com as superfícies. O espaço promoveu, ainda, exposições pelo sistema drive thru. O formato foi inaugurado na cidade pelo projeto DriveThru.Art, que expôs obras de mais de 18 artistas em um galpão de 8 mil metros quadrados.
Na tentativa de dar prosseguimento à agenda cultural, a tecnologia se mostrou uma aliada forte para esse “novo normal”. Museus pelo mundo todo disponibilizaram seu acervo virtualmente, passaram a ser mais ativos nas redes sociais e a pensar em conteúdos que não fossem somente adaptados a essa nova realidade, mas que fossem produzidos especialmente para serem consumidos por meios digitais.
No Brasil não foi diferente. A Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) e o Museu do Futebol são alguns dos exemplos de museus que adotaram as visitas guiadas virtualmente, com visão em 360º.
O formato das visitas virtuais foi tão bem aceito pelos brasileiros que as pesquisas pelo tema, durante a pandemia, cresceram cerca de 50%, de acordo com levantamento realizado pelo Google Trends.
O Museu da Imagem e do Som (MIS), localizado na capital paulista, adaptou toda sua programação presencial para as plataformas digitais no projeto #MisEmCasa.
Tour virtual da exposição Antonio Dias: derrotas e vitórias. Fonte: reprodução/MAM
Lives, conteúdos com bastidores das exposições e mostras pensadas exclusivamente para os meios digitais fazem parte da estratégia do museu para não deixar o público sem produções culturais nesse período de isolamento social.
Atualmente, as exposições de arte contam muito com a experiência do público em relação aos elementos que as compõem. Luzes, sons, cheiros, tudo fazia parte da imersão do indivíduo no contexto da obra. Pensando nisso, quais serão as dificuldades de um museu em adaptar suas exposições para um espaço onde o público não pode interagir com elas presencialmente?
Joanna Flora, responsável pela comunicação e desenvolvimento institucional do Museu da Imigração, localizado na Zona Leste de São Paulo, explica que não houve grande dificuldade, já que os conteúdos passaram a ser pensados justamente para o ambiente digital, contando com recursos que promoveriam essa interação de outras formas. “Desde a sua inauguração, o Museu da Imigração já contava com uma forte atuação nas mídias
sociais (...). Por conta disso, as mudanças aplicadas nas redes dizem respeito aos assuntos apresentados. Isso porque, desde março de 2020, foram criadas e publicadas novas séries temáticas."
Curiosidade
Você sabia que o Brasil foi um dos 20 países que mais buscou por programações virtuais de museus? Confira a lista com os nomes mais procurados no Google pelos brasileiros:
1. Museu do Louvre
2. Pinacoteca de São Paulo
3. Museu do Ipiranga
4. Museu Nacional
5. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp)
6. Museu do Prado
7. Museu do Amanhã
8. Museu Catavento
9. Museu Imperial
10. Museu Britânico
Fonte: Revista Galileu
Mesmo com o amplo conteúdo divulgado nas redes, e as plataformas digitais sendo um meio de contato sólido com o público, trabalhar apenas com esse formato sem dúvida foi uma novidade. Flora salienta que a nova visão sobre a criação de material cultural promoveu também benefícios. A abrangência de públicos internacionais e a possibilidade de inserção de mais recursos de acessibilidade, como audiodescrição e a participação de intérpretes de libras, foram alguns dos pontos positivos alcançados durante esse momento atípico.
Ela explica, ainda, que as equipes responsáveis pela curadoria e produção de conteúdo do Museu sempre pensaram em como intensificar as atividades em ambiente digital, e que a pandemia só acelerou os planos. Por isso, a ideia é que, mesmo depois do retorno das atividades presenciais, o Museu da Imigração continue investindo nessas plataformas para “expandir cada vez mais os pontos tratados e as pessoas alcançadas por debates tão relevantes, para nos tornarmos uma sociedade igualitária, justa e respeitosa com todos” conclui.
Fonte: Reprodução Unsplash/ Yvette de Wit
A pesquisa “Músicos e pandemia”, feita pela União Brasileira de Compositores (UBC) junto com a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), buscou entender o impacto da pandemia no setor cultural. O levantamento, realizado com quase 900 artistas, revelou que 30% dos músicos ficaram sem renda, 56% não recebiam por live e cerca de 86% dos profissionais tiveram alguma perda. Esta realidade se perpetua até hoje, uma vez que a normalidade ainda não foi retomada.
Para Carol Navarro, integrante da banda Supercombo, e Laiza Kertscher, sócia e assessora da produtora Highway Star, a pandemia representou um momento de bastante insegurança financeira e profissional. Ambas afirmam que assim que tudo começou, ficaram preocupadas e pensando em como conseguiriam pagar as contas, já que grande parte da renda dependia dos eventos presenciais.
"A gente buscou formas de inovar. Pensamos em fazer eventos online e, por isso, estamos trabalhando com produção de conteúdo, ainda que não sejam shows’’, disse Laiza. A Highway Star é referência na produção de eventos e gerenciamento de turnês, principalmente de grupos de k-pop. Devido ao cancelamento de shows, a empresa teve que se reinventar para se manter de pé, adotando, por exemplo, eventos do tipo Meet & Greet, no qual o fã se encontra com o ídolo por alguns minutos para tirar fotos, mas, nesse caso, via Zoom.
Embora haja boa recepção para este formato, a receita é inferior se comparada a de um show, e há alguns fatores que influenciam na participação de mais pessoas nesse tipo de evento, como timidez do público e apreço pelo artista, já que para querer ficar cara a cara com ele é preciso ser realmente muito fã.
Do outro lado, quem costumava estar em cima dos palcos buscou se adaptar à nova realidade por meio das lives, transmissões online feitas em redes como o YouTube, Instagram ou Twitch, que além de matarem um pouco da saudade dos fãs, proporcionam entretenimento e geram alguma receita. Para Carol Navarro, embora as lives sejam legais, nada se compara a um show: "O show para mim, fisicamente falando, é um negócio que eu não sei explicar, a energia das pessoas é absurda. E no virtual você até sente isso, mas é muito diferente’’.
Relatos: fãs
"Por permitirem interação entre espectadores e o artista, as transmissões ao vivo são ferramentas poderosas de medição da audiência em tempo real e permitem que os artistas possam repensar posicionamentos’’, explicou Georgina Mattos, consultora em marketing, em entrevista para o jornal gaúcho Zero Hora.
No Brasil, as lives rapidamente caíram no gosto do público, e entre as dez mais assistidas, oito são de artistas brasileiros, como Leonardo, Henrique & Juliano, Gusttavo Lima, Jorge & Mateus, Bruno & Marrone e Sandy & Junior, sendo a da cantora Marília Mendonça líder em audiência, com 3,3 milhões de views simultâneos, segundo apontou um levantamento divulgado pelo Youtube.
Inicialmente, estas apresentações eram intimistas, com o músico sozinho em casa, mas quando algumas empresas notaram que poderiam obter retorno financeiro por meio desses espaços, por servirem para divulgação de produtos e serviços, entraram com patrocínios e grandes produções foram montadas. Outras lives também foram utilizadas para arrecadar doações aos profissionais do setor musical, que não têm muitos recursos para se manter no momento
O DJ Flying Buff considera as lives muito importantes, porque se tornaram um dos únicos jeitos que os artistas possuem de se manter conectados com o público. Por conta do isolamento, e notando a recepção das lives, ele começou a desenvolver diferentes conteúdos para o formato ao vivo. "Atualmente, eu produzo um podcast chamado Papo de Producer, que acontece ao vivo todas às quartas-feiras na Twitch. Nele, eu recebo produtores musicais para conversar sobre seus lançamentos e curiosidades. Além disso, às sextas, eu faço live discotecando para a galera".
Apresentação do DJ Flying Buff em uma das edições do Gank Bass Festival
Relatos: Flying buff
Investimentos e adaptações para a realização de lives durante a pandemia
Durante a gravação do podcast, Flying Buff interage com o público pelo chat da plataforma e, depois, publica o conteúdo também no Spotify, para que todos possam ouvir novamente quantas vezes quiserem. Além desses dois projetos, ele ainda organiza e participa da Gank Bass, que é uma espécie de "emissora virtual" focada na transmissão de lives de artistas do estilo Bass Music pela Twitch. Ela conta com uma grade semanal de apresentações e realiza um festival online mensal, o GankBass Festival, onde já se apresentaram vários artistas nacionais e internacionais.
O formato teve seu boom na metade de 2020, durante o pico da pandemia, e fez com que a receita de empresas que oferecem infraestrutura tecnológica e consultoria para artistas e marcas aumentasse até 500%, como foi o caso da Clap Me, que chegou a realizar entre 8 e 15 transmissões por dia em sua melhor fase.
Mesmo que as pessoas tenham se cansado e deixado as lives de lado por alguns meses, como num movimento de gangorra, o formato que parecia obsoleto tem voltado a ganhar força. Em abril de 2021, o cantor Gusttavo Lima captou simultaneamente 1,5 milhão de espectadores em uma transmissão online. Isso indica que a tendência é que o consumo continue crescendo por, pelo menos, mais um tempo.

Música
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Teatro
Fonte: Reprodução Kyle Head/Unsplash
Em 2020, março - mês em que é comemorado o Dia Mundial do Teatro - foi marcado pelo fechamento e encerramento das atividades teatrais do país, já que a pandemia começou a se agravar no Brasil.
Durante o ano, alguns locais foram devolvidos aos donos ou fechados por tempo indeterminado, uma vez que não estavam operando. O Teatro Itália, por exemplo, foi fechado por seus gestores em setembro, assim como o Paiol Cultural, em dezembro. Para outros, o digital passou a ser o principal meio de trabalho.
A companhia infantil Faz Assim Produções, do Rio de Janeiro, foi afetada diretamente pela interrupção das atividades presenciais, mas passou a optar pelos eventos online. A produção As Aventuras do Sítio foi a primeira peça da companhia a ser transmitida remotamente, com cada personagem em sua casa. O espetáculo estava em cartaz no Teatro J. Safra, em São Paulo, quando foi interrompido em março.
Uma das atrizes da companhia, Gabriela Salman, relata que no início chegou a pensar que a pandemia não duraria tanto tempo e que poderia seguir presencialmente com a turnê nacional do Musical Congelante: A Jornada, peça sobre o filme Frozen 2.
“Foi uma surpresa para todos. O primeiro sentimento foi a lamentação, pois é um investimento enorme que se faz em eventos desse nível. Nós gastamos muito com cenário e figurino. Ao todo, a companhia deve ter gasto muito mais que R$20 mil para colocar a peça em cima do palco, mas nós entendemos a necessidade do fechamento”, afirma.
Para a atriz Carla Llaguno, a mudança foi difícil: “O teatro sempre foi uma coisa presencial, então foi complicado compreender essa questão de cada um na sua casa, que teríamos que nos adaptar às telas e aprender um novo jeito de atuar”, diz a artista.
As peças são apresentadas, muitas vezes, com o elenco em casa, se esforçando para transmitir o máximo de emoções aos espectadores. Também existem casos em que a companhia realiza o espetáculo no próprio teatro e exibe através da internet.
Salman relata que um dos principais desafios da adaptação foi gerar o interesse no público, pois entre assistir uma peça ou um filme em plataformas de streaming, as pessoas optam pela segunda opção. ‘’Infelizmente, o trabalho do artista não é muito valorizado presencialmente. Então, como torná-lo atrativo no formato virtual? As pessoas não querem assistir a uma peça online”, conta a atriz.
Assim como as obras, as aulas de teatro também foram adaptadas e continuam sendo realizadas remota ou presencialmente - com quantidade reduzida de alunos e seguindo as medidas de segurança.
Llaguno explica que antes da pandemia, dava aulas presenciais para crianças, e durante o período começou a lecionar para adultos através da plataforma Zoom. “É um trabalho de evolução do ser humano, mesmo sendo online. Porém, presencialmente é mais interessante pela possibilidade do contato, pois há um movimento de ação e reação”.
Salman, que também leciona, complementa que a principal motivação são os alunos, pois eles estão engajados. “A gente continua nesse processo de fazer teatro mesmo à distância, e eventualmente faz alguns exercícios cênicos no palco. Tem sido um processo bem bacana ver que os alunos estão entregues e dispostos”.
Ela acredita que o grande desafio ocorreu no início, pois a adaptação era algo novo. Além disso, cita que outra dificuldade é utilizar objetos da casa para os exercícios cênicos.
Por fim, Salman crê que o teatro conseguiu se reinventar com o auxílio das plataformas digitais. “Passamos por um longo processo até aprender a fazer peças para o formato virtual. Na realidade, esse tipo de apresentação começou a ser mais aceito em 2021, quando pudemos retomar os ensaios coletivos. Assim conseguimos mostrar ao público a essência de estarmos nos tablados, mesmo através de uma live. O teatro se ressignificou”, finaliza.



